Sexta-feira, Março 09, 2007

Papo reto, clima tenso

Mas não tive a menor dúvida quando vi os lambe-lambes: já me sentia lá no (na?) Status Music Hall (hahaha, que nome, que nome!), quinta, 08/03, pra ver o tal evento MC Frank Vs. Menor do Chapa, que chamava para si a pregorrativa de ser o "maior baile funk" da história, ou algo do gênero.

Tranquilize-se, não fui lá atraído pela pretensão do cartaz. Nem pelo Status da coisa. Nem pelo "baile funk". Fui porque já tinha ouvido algumas coisas do Menor do Chapa e ouvido falar bem do MC Frank. Talvez aqui seja bom eu falar um pouquinho do que acho sobre funk carioca.

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Primeiro, não sou especialista. Não conheço muito e não me preocupo em conhecer mais do que já conheço. Em outras palavras, sendo o mais claro possível, não aparece com frequência no meu mp3 player ou no meu cagueta musical.

Isso posto, acho bom, os funks cariocas, se o MC for bom. Simples assim. Porque normalmente (normalmente, estou excluindo, portanto, as ocorrências atípicas, das quais gosto muito) as bases ficam no de sempre: funcionam, balançam e pegam pelo pé, mas são limitadas. Daí que meu negócio com o funk é MC, eles são o meu alvo e deles vêm os meus parâmetros de qualidade.

Tenho o que falar, e falarei, sobre as letras. Mas não agora.

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Fui à festa esperando um algo principal, ou seja, bons MCs de funk carioca, e algumas coisas secundárias: biatchs com poca-ropa, calor, lotação, putaria na pista, muito moleque pagando de bandido, goró, maconha e cocaína à vista aberta e muita pressão nas caixas de som, muito funk jorrando grave e pesado e cristalino e irresistível pelo soundsystem da casa. Biatchs não me incomodam; putaria, desde que consentida entre as partes, muito menos; calor e lotação eu tava disposto a aguentar, mesmo sendo um entusiasta do céu aberto e pouca gente; gangstas wannabes dão o tom funny da coisa; e as drogas, bem, não tenho problemas, nem com elas nem com os usuários. Tudo isso houve. O que não houve foi funk.

Exato, não houve funk no baile funk. Até a entrada do MC Frank, não houve funk no baile funk.

Antes disso, ficamos eu, minha espousa Alline e nossa amiga Marina na pista, tomando uma cerveja ruim e assitindo nosso otimismo diminuir exponencialmente a cada música que o "DJ" excretava. Aquele ser bombado, que a cada cinco minutos pegava um microfone e ia pra frente do palco desfilar com uma camisa onde se lia, pintado à mão, "DJ Batmam", e falar de times de futebol - o Corinthians isso, o Palmeiras aquilo - não sabia virar as músicas. Enfiava uma após a outra, e uma após a outra a coisa só piorava. Quando entramos, rolava um rap bling bling de FM, o que nos fazia torcer pra música acabar logo, ainda havia a possibilidade de boas músicas serem tocadas. Do rap, foi ao reggae nacional fuleiro, duas ou três músicas só, mas que nos fizeram desejar que a próxima virada sem noção ao menos trouxesse funk, afinal, estávamos ali pra isso. Mas depois do reggae entraram faixas do inigualávelmente horrível forró universitário - cruzar os braços e ficar em silêncio, foi o que nos restou (silêncio quebrado pelo "mais 20 minutos pra começar o show, ou vamos embora", da Alline).

Nesse interím de músicas péssimas, o público, majoritariamente cueca, já dava mostras tímidas de suas principais características: desrespeito, machismo e cretinice em níveis estratosféricos. Saca aquela tradição das festas povão de São Paulo, (será que só aqui? falo daqui porque é só onde conheço), onde marmanjos ficam chegando nas garotas sem a menor classe, meio que já forçando um beijo, ou pegando no corpo ou passando a mão no cabelo? Então, isso, aos montes, mas, pelo menos com a gente, ainda dava pra conter - mas, porra, que incômodo. Só uns ou outros que precisaram de uma interferência minha pra sacarem que, num lugar tão cheio de vagabas não era justamente com uma garota acompanhada e outra que não estava afim nem olhar pra aquelas fuças espinhentas que eles iriam exercitar o maldito dom da falta de noção. Foi sintomático que no tempo em que ficamos ali as pessoas mais dignas e com posicionamento diferente desses vermes acima mencionados eram 1) uma rapaziada sinistra, com tattos cadeieiras pelos braços e uma inegável cara de 157 (de verdade, não wannabe) 2) um maluquinho que arrumava treta toda hora com a zépovinhagem e que tinha a face retorcida de tanto pó, consumido ali na pista mesmo, com canudo de um real sobre a mão em concha.

Aí veio a conversinha Vida Loka, põe a mão pro alto, etc... e entrou MC Frank. Botava muita fé de que tudo melhoraria: a música do cara pra mim tava bem cotada, e imaginava que com as cachorras pegando forte no rebolation a vermaiada se arrastaria pra perto das mini-saias delas. Mas não, era uma noite de fortes enganos: não só o assédio ficou pior como mais frequente; já o MC Frank foi uma piada. Nos dez, quinze minutos em que teve o palco só pra ele, seu melhor momento foi uma tentativa risível de chute furacão (a popular giratória) na frente da galera. No mais, ecoou o "DJ" Batmam em rimas simplórias sobre Corinthians, Palmeiras, essas coisas.

E aqui já não sei se tudo piorava mesmo ou se depois de tanta encheção de saco da cretinália minha percepção se distorceu, mas baixou grandão o mau humor e até o que não me incomodava antes (basicamente a putaria consentida e feliz do povão) passou a merecer veneno destilado da minha parte. Por mais divertido - pros participantes - que parecesse os trenzinhos, os sanduíches e as almôndegas humanas, não havia como disfarçar a tristeza que é a imitação desajeitada do ambiente funk na periferia de São Paulo, tão afeita que é e sempre foi ao gangsta, ao mundo cão e à misoginia. Fala-se muito que, no Rio de Janeiro, letras sobre dar a buceta "porque a porra da buceta é minha" representam, paradoxalmente um avanço nas questões femininas e blá-blá-blá (não vou repetir os mantras feministas, você já sabe ou imagina qual é o discurso), mas aqui, em SP, parece que não tem espaço pra individualidades fortes e confrontadoras tipo Deize Tigrona ou Tati Quebra-Barraco: a porra da buceta pode sim ser da guria, e ela pode até cantar isso e chacolhar a dita cuja na pista, mas só tá fazendo e perpetuando compulsoriamente seu papel obrigatório de espaço de acoplamento para rolas, e não escolhendo se quer ou não representar esse papel. A porra da buceta, no final das contas, de quem que é?

Acho que aqui cabe falar um pouco do que eu penso das letras.

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Não vou me estender sobre as letras pornográficas muito mais do que já falei acima. Os funks que gosto de ouvir não tem essas letras, mas nem por isso clamo o sangue de Jesus por causa dessa putaria de quarta-série. Na verdade, acho até interessante uma mulher tipo a Deize cantando o que canta, porque a sexualidade feminina ainda, incompreensívelmente, é um tabu. Aquela história do garanhão porque come todas e da puta porque deu pra dois... afe, tenho preguiça e vergonha de ter que escrever sobre isso.

Repito, não vou me estender nessa parada de letras pornográficas, fui um saudável moleque que falava tudo isso e muito mais na rua, não me incomodo nem um pouco com a existência desse tipo de coisa e quero mais é que quem quiser cantar que dako é bom cante, grite, faça o que quiser. E se você pensa diferente, dois caminhos: a caixa de comentários tá aberta e o xis do canto direito superior dessa janela acaba com o seu suplício. Prefiro deixar um exemplo de obra prima em letras de funk.

Ah sim, falando em Cidinho e Doca, tem os "proibidões", né? Acho que se ao invés de "proibidões" eles fossem chamados de "estudadões", muita coisa melhoraria. Mas vai, ignora, continua ignorando que ser ignorante é mesmo a sua cara...

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Parei no MC Frank e na imitação desajeitada do que a perifa de SP acha que acontece na perifa do RJ. Pois então é isso, MC Frank foi ridiculamente ruim, e me parece que o principal problema desse suposto baile funk que eu fui é basicamente a junção da tradição machista e desrespeitosa que há desde sempre quando se junta uma multidão de pessoas ignorantes e pouco esclarecidas com uma alucinação coletiva, uma imaginação fértil sobre os bailes funks cariocas. Bom, nem vou entrar na questão do quanto a mídia tem seu quinhão de culpa ao propagar sempre os mesmos aspectos dos bailes cariocas porque isso só pioraria o lado do público - já que pra mim a oposição "oprimido X opressor" é coisa de comunistinha/esquerdinha/ativistinha cheio do que Nietzsche chama de ressentiment. É tão claro que o oprimido abriga pacificamente o opressor que me enche de preguiça novamente ter que escrever essas coisas. Fica pra depois.

Só que aí entrou o Menor do Chapa. Que maluco ca-bu-lo-so. Pisou no palco e já mandou "Cadê o isqueiro?" na versão original acompanhado de MPC e congas. Minimal é isso, que mané Kompakt. Finalmente o som que eu queria ouvir apareceu, depois de umas duas, três horas de música ruim e chicoteando as feras, finalmente o funk mesmo, nervoso, cantadão, um MC de verdade, sem brincadeira.

Só que fomos embora depois de cinco minutos.

Porque? Porque pingou a derradeira gota d'água: colaram quatro imbecis à nossa volta, e um deles, com um lábio leporino PAVOROSO, ficou se engraçando acima do limite, já forçosamente estendido, pra cima da Marina, nossa amiga. Chega.

(Menor do Chapa, funk carioca, agora, só no Rio, onde uma fonte confiável garante que a diversão não é abalada por esse tipo de criatura semi-humana)

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